sexta-feira, 4 de abril de 2014

Ipea admite erro em pesquisa sobre estupro e diretor pede demissão

Instituto se retrata e diz que são 26% e não 65% os que apoiam ataques a mulheres


Rio - O Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) informou nesta sexta-feira que os dados divulgados na pesquisa sobre a violência contra a mulher estão errados. Na ocasião, o estudo apontou que 65,1% dos brasileiros concordavam que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas", mas em correção, o Ipea divulgou que a porcentagem correta é de 26%. Após a divulgação , o diretor de Estudos e Políticas Sociais , Rafael Guerreiro Osorio, pediu demissão do cargo.
Jornalista Nana Queiroz
Foto:  arquivo pessoal
Em nota, o instituto informou que o erro foi causado pela troca de gráficos. Outros dois dados divulgados também apresentavam equívocos. "Com a inversão dos resultados, relatamos equivocadamente, na semana passada, resultados extremos para a concordância com a segunda frase, que, justamente por seu valor inesperado, recebeu maior destaque nos meios de comunicação e motivou amplas manifestações e debates na sociedade ao longo dos últimos dias", diz a nota do Ipea.
Quanto à outra questão que causou polêmica, o instituto reafirmou os outros resultados. "Contudo, os demais resultados se mantêm, como a concordância de 58,5% dos entrevistados com a ideia de que se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros".

Repercussão
A pesquisa, com os dados alterados, gerou muita polêmica e uma campanha nas redes sociais com o lema #EuNãoMereçoSerEstuprada (Eu não mereço ser estuprada). A onda de indignação teve o apoio da presidenta da República, Dilma Rousseff.
Milhares de brasileiras se indignaram com a conclusão da pesquisa e se manifestaram nas ruas e em redes sociais. A jornalista Nana Queiroz, que organizou o evento no Facebook,chegou a receber centenas de ameaças de violência sexual por mensagens enviadas pela internet.
Com a correção dos dados da pesquisa, uma nova campanha surgiu no Facebook. "Eu não mereço ser enganada pelo Ipea" já conta com a participação de três mil seguidores em menos de duas horas e compartilha centenas de fotos e vídeos em protesto ao instituto.
“Lamento profundamente que o Ipea tenha sido pouco cuidadoso na divulgação. A diferença de resultados é abissal. Mesmo que haja apenas uma opinião favorável, temos que continuar investindo na conscientização e no combate à violência”, disse a ex-chefe de Polícia Civil, Martha Rocha, que criou diversas delegacias de defesa da mulher no estado.
Para a socióloga da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Márcia da Silva Pereira Leite, a divulgação do novo resultado, mesmo que um pouco mais positiva, significa que ainda há preconceito. “Mesmo assim, se quase 30% concordam com a afirmação, demonstra o machismo elevado. É um processo longo de mudança de educação e cultura, mas a reação que se viu pelo país, pode ser parte da cadeia de mudança para a sociedade”, analisou.
O sociólogo e cientista político da Universidade Federal do Rio, Paulo Baía, criticou o erro. “O Ipea errou feio e desmoralizou a sociedade brasileira, porque a pesquisa se reflete direto na forma de pensamento da sociedade. Depois do novo número divulgado, o povo brasileiro vai ter menos peso na consciência”, afirmou Baía. Ele ressalta, no entanto, que o engano não diminui a gravidade do problema: “Estamos falando de um quarto da população, ainda é muita gente que aceita esse tipo de prática. Infelizmente, o machismo domina a cabeça da maioria das pessoas”.
Brasileiras protestam em página do Facebook
Foto:  Reprodução Facebook

Criadora de campanha diz que erro do Ipea não desqualifica mobilização
Para a jornalista Nana Quiroz, criadora do movimento, "a correção desqualifica o Ipea, não nosso protesto", opina. "Isso porque 26% é uma porcentagem muito grande e vamos lutar até chegar a zero", diz Queiroz. "Na verdade não ficamos tristes, ficamos felizes, porque a sociedade está menos atrasada do que pensávamos", disse.
Apesar do número ter caído vertiginosamente, Nana vai continuar a luta para zerar este percentual. "Tudo continua igual. A gente continua tendo o mesmo objetivo. A vítima não tem culpa. A gente vai mudar a cabeça desses 26%".

Fonte:O DIA